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sexta-feira, agosto 07, 2015

A “Segunda Zona” da CAND



Já aprendemos nas postagens anteriores que a região da Colônia Agrícola Nacional de Dourados, quando iniciou a distribuição dos seus lotes, teve um crescimento populacional incrível, superando as expectativas do governo e saindo mesmo fora do controle de sua Administração. Vejamos como nasceu sua 2ª Zona.

No início da abertura das matas, limpeza e ocupação dos lotes da região hoje conhecida como Grande Dourados, as dificuldades eram imensas, mas no início houve algum tipo de amparo por parte da administração. As propagandas eram abundantes e salientavam as vantagens da migração nordestina e de outras regiões para o oeste brasileiro.

Por outro lado, nem tudo eram flores para os colonos. Se houve um melhor controle sobre a alocação dos colonos num primeiro momento, no que veio a ser conhecido como Primeira Zona, na segunda metade da década de 1950 a situação já fugiu do controle, nascendo assim a Segunda Zona, do lado direito do rio Dourados, com uma ocupação populacional não-indígena desorganizada e, em grande medida, sem amparo da Administração da Colônia.

Em relação à ocupação da Segunda Zona, que muitos chamam de “invasão”, a historiadora Suzana Naglis nos diz que

[...] fiquei surpresa ao perceber que as versões não coincidem, até mesmo quanto aos períodos, e, de quanto seriam os colonos responsáveis por tal feito. É certo que as versões têm em comum o fato de o colono ser o ator principal, que atuou em benefício próprio, contrariando os projetos da Administração [1].

O fato também é que se a Primeira Zona “compreendia uma área territorial menor de 68.000 hectares, com a chegada em massa dos colonos, as terras cultiváveis a serem demarcadas se tornaram escassas” [2]. Escassez de terras e demora na demarcação dos lotes levaram os colonos a agirem por conta própria. A professora Benícia de Oliveira (1999) nos diz que “[...] quando a primeira área já havia sido loteada e distribuída [os colonos] foram se acomodando numa área próxima, na espera da terra prometida. Tendo em vista a demora na demarcação, eles tomaram a iniciativa de ir abrindo picadas, demarcando, abrindo roças e iniciando a plantação” [3].

Já em 13 de agosto de 1954, o Administrador da CAND, Clodomiro de Albuquerque, através do Ofício 734, diz que a Segunda Zona representava 73% de toda área da Colônia, que neste momento já estava constituída “em zonas particularmente distintas”, sendo interessante o seu pedido pela emancipação da Primeira Zona, a fim de que pudessem voltar-se mais para os serviços que se faziam necessários e urgentes na Segunda [4].

Os trabalhos complementares que a Primeira Zona necessita tais como algumas estradas secundárias e construção de mais escolas, além da manutenção dos atuais encargos de saúde, educação e estradas, poderão ser entregues a outras entidades públicas, melhor indicadas para esse cometimento [5].

Clodomiro Albuquerque acreditava que esta medida seria favorável aos colonos já estabelecidos na Primeira Zona, pois assim eles se tornariam proprietários efetivos dos lotes, acreditando ainda que eles conseguiriam mais facilmente créditos junto à Carteira de Crédito Agrícola, do Banco do Brasil. Sua ideia era concentrar recursos na Segunda Zona, que tinha “seu desenvolvimento retardado, até mesmo no que diz respeito ao loteamento, ponto básico dos nossos planos de trabalho” [6].

Em outro ofício, de abril 1955, o mesmo administrador relacionava algumas medidas urgentes a serem tomadas com respeito às terras e aos colonos da Segunda Zona, dentre as quais estava: localizar os colonos nos lotes cortados de acordo com as marcações; orientar o trabalho dos topógrafos; e atualizar o cadastro desses colonos [7]. Além disso, outro problema grave, que a Colônia já parecia ter pelo menos desde a década de 1940, era o sanitário, chegando o Administrador Clodomiro de Albuquerque, em 1953, a reclamar da existência de “um hospital maltratado, onde se acotovelam 80 e até 100 doentes diariamente”. Apelando por aumento de verbas, Albuquerque diz ainda que “[...] as administrações ficam paradas, comovidas e impotentes, a dar-lhes razão sem meios de atender-lhes os apelos, sem recursos, olhando as cifras dos seus saldos que mínguam e desaparecem muito antes dos fins de ano” [8].

Em relação ao povoamento da região, vale dizer que, na área da colônia, surgiriam os municípios de Fátima do Sul, Glória de Dourados, Jateí, Deodápolis, Douradina, Vicentina, distritos, como Nova Esperança, e vilas como São Pedro e Vargas, pertencentes ao atual município de Dourados. O caso de Fátima do Sul é especial, pois se formou inicialmente no lado esquerdo do rio Dourados, denominada à época Vila Brasil, na Primeira Zona, sendo que “posteriormente este povoado foi crescendo e aí sim os colonos teriam invadido a margem direita”, ultrapassando o rio e ocupando a Segunda Zona [9].

Suzana Naglis, analisando documentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), diz que não existe documentação referindo-se à emancipação da Primeira Zona, ao contrário da Segunda Zona, que tem sua emancipação oficialmente em 1959 [10]. Essa é uma questão complicada, pois tal emancipação, ao que parece, levou tempo para se efetivar na prática, tendo em vista que alguns depoimentos dão conta da chegada de colonos no fim de década de 1950 e inícios da década seguinte, exemplo do senhor Manuel Valêncio Gomes Filho “Sué”, nascido em Pernambuco, em 1937, que teria migrado para a região de Vila Jateí exatamente em 1959, quando grande parte da Segunda Zona nem havia tido seus lotes demarcados [11]. Além disso, quando o Território Federal de Ponta Porã foi extinto em 1946, as terras onde se encontrava a Colônia voltaram ao domínio do estado, que a manteve com o nome de “Núcleo Colonial de Dourados” (NCD) [12]. Anos depois elas são então doadas pelo mesmo ao Governo Federal, representado pelo Instituto Nacional de Imigração e Colonização (INIC), subordinado ao Ministério da Agricultura.

Por fim, segundo pude perceber dos documentos oficiais do INIC/CAND, continua aparecendo, pelo menos até 1960, “Colônia Agrícola Nacional de Dourados”. Na mesma década de 1960 é que a CAND começa a aparecer com a denominação “Núcleo Colonial de Dourados”, como nos mostra, por exemplo, um ofício sem número de Wicar Góis de Teixeira, Chefe do Departamento de Colonização do INIC, a Tácito Pace, Administrador do Núcleo Colonial de Dourados (NCD), de junho de 1960 [13].

No mapa a seguir vemos uma representação livre da CAND, dividida em suas duas Zonas*.



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Na próxima postagem, estarei fechando essa série sobre o sul de Mato Grosso no século XX, hoje Mato Grosso do Sul, que como já vimos foi mais do que um simples produtor de erva-mate e criador de gado, que ao mesmo tempo foi profundamente transformado com a criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados na década de 1940.


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POSTAGENS DA SÉRIE:

1. Os migrantes no sul de MT antes da década de 1930 
2. As políticas de colonização do Estado Novo e a Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND) 
3. As ideologias do Estado Novo e os fatos que motivaram a criação da CAND
4. O Território Federal de Ponta Porã
5. A "Segunda Zona" da CAND
6. Concluindo a série Sul de Mato Grosso no século XX


* Foto do topo: Primeira ponte sobre o rio Dourados, ligando a Primeira com a Segunda Zona, 1957. "Coleção CAND" - CDR/UFGD.

** Um mapa detalhado da CAND pode ser consultado em minha dissertação de Mestrado, "Erva-mate e frentes pioneiras: dois mundos em um só espaço (1943 a 1970)".

*** Originalmente postado em 24/fev/2013.

Referências

[1] Naglis, Suzana G. Batista. "Marquei aquele lugar com o suor do meu rosto": os colonos da Colônia Agrícola Nacional de Dourados - CAND (1943-1960). 2007. Dissertação (Mestrado em História) – UFGD, Dourados, p. 67.
[2] Idem, p. 65.
[3] Ibidem, p. 64.
[4] OLIVEIRA, Benícia Couto de. A política de colonização do Estado Novo em Mato Grosso (1937-1945). 1999. Dissertação (Mestrado em História) – FCL/UNESP, Assis, p. 197.
[5] Ofício 734, do Administrador da CAND, Clodomiro de Albuquerque, ao presidente do INIC, de 13/ago/1954.
[6] Ofício 352, do Administrador da CAND, Clodomiro de Albuquerque, ao diretor do DTC, 11/dez/1953.
[7] idem, grifos meus.
[8] Ofício do Administrador da CAND, Clodomiro de Albuquerque, ao diretor do DTC, abr/1954.
[9] NAGLIS, 2007, p. 66.
[10] Idem, p. 40.
[11] Entrevistado em Jateí, MS, em 16 de dezembro de 2011.
[12] MAZZINI, Adilvo; XAVIER, Cláudio. 50 anos da criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados. Dourados/MS: Funced, 1993. [Datilografado]
[13] Ofício s/n, de Wicar Góis de Teixeira, Chefe do Departamento de Colonização do INIC, a Tácito Pace, Administrador do NCD, jun/1960.
[14] NAGLIS, 2007, p. 31.
[15] Se avançarmos até o ano de 1970, teríamos mais um na lista, Pedro Pedrossian (1966-1970).
[16] NAGLIS, 2007, p. 33.

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