Almofadinhas querem ser Lady Gaga também ~ Identidade 85 ::
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sexta-feira, agosto 29, 2014

Almofadinhas querem ser Lady Gaga também



Tenho pensado e me parece que muita gente está vivendo no maravilhoso mundo de Lady Gaga. Elas estão no limiar do excêntrico e por vezes nele se inserem. Isso é muito interessante por nos mostrar as experimentações, as diferenças, e às vezes uma vida de arte "all the time", ou seja, o tempo todo. 

Essa arte no sentido de representar um papel, de encenar reações, de se inserir em grupos e neles se descobrir constantemente. Arte de ouvir músicas que alguns acham ofensivas e desse som tirar algo de novo - se bem que a cada um caiba o poder de escolha e meu direito de escolha me diga que alguns estilos passam dos limites do suportável. Isso já vem sendo discutido em áreas da História, Sociologia, Filosofia e outras humanidades, que estudam as identidades e representações de homens e mulheres, que passam por processos de construção cultural constante*.

Quando se fala em música, os gostos se mostram os mais diferenciados. Eu confesso que não gostava da maioria das bandas e cantores dos anos 1980, por exemplo, coisa que venho superando e separando nas listas do que me agrada e não me agrada especificamente (sobretudo a moda). Hoje ouço muito mais essa década e gosto. Isso me faz pensar nas maneiras como as pessoas procuram se identificar  com gostos, além de se "criar" visualmente e em seus comportamentos.

O que nos remete à moda e sua trajetória ao longo dos tempos. Nessa área movediça não me atrevo a adentrar conceitualmente, mas é sempre interessante procurar perceber os efeitos das imposições daqueles senhores e senhoras que detém o poder de dizer o que é "usável" ou o que é ofensa aos seus olhos requintados, ou ainda o que é old-fashioned. Como se fossemos presos aos culottes, "espartilhos" e "moldes" atemporais que não nos deixam escolhas a não ser o de andar "no estilo" ou sermos sans-culottes, bregas e/ou no sense.

Mas, voltemos à Lady Gaga, para quem "a vida é uma arte o tempo todo". Em uma entrevista recente para falar de seu último álbum, Artpop**, ela fez questão de expor sua arte de forma inacabada: "eu não considero necessariamente que eu seja uma artista performática pronta"Há quem estranhe, mas às vezes acho interessante suas formas de expressão (no plural) e suas músicas, muitas das quais estranhíssimas aos olhos de quem foi treinado para ver o padrão, o "normal", o hermeticamente ensaiado e exibido. Seu estilo nos diz algo do tipo: "seja louco, pois ser o normal é que é ser insano". Isso sem contar as letras, os sons, as coreografias...

Tem coisa que eu não ouço por questão de princípios (rs). É, por exemplo, o que em nosso caso brasílico se mistura aos anseios da juventude metamorfoseante, aquela tipo "restart", que experimenta tudo e nada a satisfaz. Já não é mais solitária nesse cenário a cultura emo, em suas várias nuances. Os nossos jovens estão querendo ostentar, estão preocupando-se em se descolar, estão almejando muitas coisas que só lhes afundam num consumismo que às vezes lhes é proibido, o que causa um conflito perigoso entre os desejos e a crua realidade. 

Para não dizer que não falei de capitalismo. Essas coisas não me cheiram como novidade, no sentido exato do termo. Vejo isso em todos (ou quase isso) momentos que já parei para pensar do século XX. A busca da diferença, da rebeldia, da superação, da afirmação, enfim, algo parecido com o que o Rock fez a partir sobretudo da década de 1950 - se bem que neste último caso o som me soe bem mais agradável.

Não quero aqui dizer que a diferença seja ruim em si. Aliás, é o contrário: ser diferente deve ser visto como algo normal e interessante. O que quero é provocar um pouco, sugerir que pensemos nos momentos em que ser Lady Gaga é mais legal que ser João Almofadinha -  se bem que os almofadinhas estão virando Lady Gaga também...

Bom, mas fiquemos por aqui. Acho que já cansamos o bastante.



* A lista é grande e aqui não citarei nenhum autor, a quem interessar podendo ler Michel Foucault, Giles Deleuze, Derrida, Pierre Bourdieu, Roger Chartier, entre tantos outros.
** Lady Gaga: ‘Life is art all the time’: http://www.bbc.com/culture/story/20140117-gaga-life-is-art-all-the-time

2 comentários:

  1. Sempre foi clara o gosto pela arte , pois sempre foi dita pela Gaga , sempre gostei do clássico , porém, Gaga tem uma coisa contemporânea e sempre tentando misturar com o clássico e isso me fascina muito pois é difícil inovar ainda mais hoje em dia em que qualquer detalhe parecido já é visto como cópia (como a música born this way). Como fã de Lady Gaga posso dizer que ela sempre me ajudou a descobrir coisas novas, um exemplo é a moda que despertei depois de me considerar fã e hoje tento trazer o meu bom gosto que despertei para o meu dia a dia .
    Mas quero falar que a música influência em tudo como os movimentos políticos na ditadura militar , então música é importante sim pois enchem nossos ouvidos com aquilo que nos faltava e ainda em busca de algo novo mesmo que seja simples porém marcante.
    Por último quero agradecer sobre essa visão que teve sobre Lady Gaga e não só ver ela como algo bizarro e que só quer causar, se considere um monster . Paws up

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    Respostas
    1. Eu me considero um "monstro", curto algumas peças do repertório dela. E é por aí mesmo, a música tem formas de fazer sentido que vai de cada ouvido e de cada ouvida, ou seja, da maneira como nos preparamos para experimentar os sons. Bacana o comentário!

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