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sexta-feira, julho 10, 2015

Papo de professor: sobre o ato de avaliar



Desde 2014 venho participando de um curso de âmbito nacional que visa fortalecer o Ensino Médio brasileiro, o chamado PNEM. Por isso gostaria de apresentar algumas reflexões que fiz sobre alguns pontos da educação brasileira, especialmente sobre esse nível. Começarei essa semana com a "avaliação".

O assunto avaliação envolve várias questões, muitas das quais bem polêmicas. Uma delas diz respeito à chamada transmissão de conhecimentos, cuja superação não é fácil. Outra polêmica é quanto ao tipo de avaliação que seria mais adequado, saindo dos métodos usuais (múltipla escolha, especialmente) em que grande parte dos alunos se dedica à decoração, sobretudo em dias próximos ao marcado para os testes de conhecimentos.

Ligada ao que é conhecido genericamente como Escola Tradicional (LEÃO, 1999), a chamada transmissão de conhecimento vem de longa data (por exemplo, com ligações nas ideias de Rousseau sobre a pedagogia da essência), mas tendo uma persistência especial das influências iluministas de maneira geral, nos séculos XVII e XVIII, e depois positivistas, no século XIX. Nessa visão tradicional a educação escolar teria a função de auxiliar a construção e consolidação de uma sociedade democrática, mas isso de uma forma “fechada”. Temos um ideal de escolas que vem do século XIX, imagem muito familiar ainda hoje, onde deveriam ser “organizadas em forma de classes, cada uma contando com um professor que expunha as lições que os alunos seguiam atentamente e aplicava os exercícios que os alunos deveriam realizar disciplinadamente” (SAVIANI, 1991 apud LEÃO, 1999, p. 3).

Na concepção do Positivismo, especialmente, os conhecimentos são então “encaixotados” ou “empilulados” e entregues de forma que os alunos recebam docilmente aquilo que o professor passa e não produzam nada por eles mesmos, deixando para pensar de forma própria e crítica quando estiverem no Ensino Superior. Essa é uma importante condição para tais conhecimentos serem aceitos, serem considerados científicos, ou seja, poderem ser universalizados e livres de críticas individuais. 

Claro que mudanças ocorreram, com tentativas de superação dessa corrente também conhecida como cientificista, mas permaneram traços fortes o suficiente nas formas de educar, nesse caso especialmente de avaliar (cf. SAVIANI, 2007).

Assim, no processo avaliativo tradicionalmente concebido, restaria ao aluno apenas reproduzir estritamente o que ouviu ou foi indicado como leitura pelo professor (cf. SAVIANI, 2014). Não importando aí as experiências dos mesmos, suas vivências, os contextos em que os conhecimentos apresentados façam sentido ou não. Percebemos aí que há falta de sensibilidade por parte dos docentes; aliás, sensibilidade é uma palavra abominável para alguns, já que esperam transmitir conceitos científicos e preceitos morais de forma autoritária.

Ao contrário dessa visão, deve-se propor uma abertura para a participação dos alunos, permitindo que tenham papel ativo no processo avaliativo e para que se sintam parte pensante e não apenas peça de uma engrenagem (Formação de professores do EM, etapa I - caderno VI, 2013, p. 21). 

Se bem que deva haver um ponto de partida, ou seja, o conhecimento que o professor tem, e está aí uma de suas funções principais, a linha de chegada deve ser cruzada pelos próprios alunos, ou seja, através de suas leituras próprias do conteúdo transmitido, com o exercício do senso crítico e interpretações/reelaborações à partir de suas experiências pessoais. Nesse sentido o professor aparece como mediador e não como mero transmissor. 

Afinal, basta um olhar, por exemplo, sobre as tecnologias disponíveis e a infinidade de informações que estão ao alcance dos alunos (com a internet, para citar um exemplo mais atual). Enquanto explicamos algo ou passamos algumas informações, não é raro ouvirmos hoje em dia alguns perguntarem, “professor, eu encontro isso em que site?” ou “tem no Youtube?”. Está aí um momento importante para a mediação, onde o professor precisa, de sua parte, estar atualizado com o que está disponível no cyber espaço – ainda que isso ocorra de forma limitada, pois também não damos conta de tudo e nem essa deve ser nossa pretensão. Mas, se tivermos materiais a indicar, coisas que sejam relevantes e que tenham procedência, criaremos um vínculo, direta e indiretamente, que vai além da sala de aula.

É aí entra uma outra polêmica: como mudar a consciência existente e persistente de professores que se sentem como seres soberanos, que sempre esperam ser as únicas vozes ativas na sala de aula, figuras máximas, sentada em seus tronos e usando do que sabem como uma espécie de cetro de poder? Por outro lado, como poderemos abrir caminho para novas práticas sem perder a autoridade mínima e necessária para o bom andamento das aulas? 

No que diz respeito ainda ao tipo de avaliação, lançamos alguns outras questões a serem pensadas a respeito do ato de avaliar, tais como: o que esperar em uma avaliação? O que importa que os alunos façam realmente, decorar ou percorrer seus próprios caminhos através do conhecimento? As avaliações tradicionais tem dado conta de humanizar o ensino (especialmente o Médio) e formar cidadãos conscientes? Quais seriam então as possíveis novas formas de avaliar? 

Quando encontrarmos respostas satisfatórias para essas e outras tantas perguntas poderemos seguir a proposta feita no Caderno 6, Etapa 1, do PNEM:

consolidar uma nova cultura de avaliação, associada ao sucesso de todos os alunos, vinculada ao trabalho coletivo e ancorada em técnicas, instrumentos e procedimentos pelos quais cada aluno seja avaliado em relação a si mesmo e, simultaneamente, em relação aos colegas, fixados os critérios de um resultado satisfatório para todos (2013, p. 20).

Na próxima postagem (sábado 28/02) falarei sobre "grêmios estudantis". Aguardem e enquanto isso não deixem de comentar, por aqui ou pelos nossos perfis nas redes sociais!

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Referências

FORMAÇÃO DE PROFESSORES DO ENSINO MÉDIO, etapa I - caderno VI: avaliação no ensino médio / Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica; [autores: Ocimar Alavarse, Gabriel Gabrowski]. – Curitiba: UFPR/Setor de Educação, 2013.
LEÃO, Denise M. M.. Paradigmas contemporâneos de educação: Escola Tradicional e Escola Construtivista. in Cadernos de Pesquisa, nº 107, julho/1999.
SAVIANI, D.. História das ideias pedagógicas no Brasil. Campinas, SP: Autores Associados, 2007.
SAVIANI, Demerval. A história das idéias pedagógicas no Brasil (1759-1932). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LL_W-F1t2A8 (Vídeo), consultado em 20/11/2014. 
SILVA, Ana Paula da. O embate entre a Pedagogia Tradicional e a Educação Nova: políticas e práticas educacionais na escola primária catarinense (1911-1945). in Anais da IX ANPED SUL, 2012.

* Originalmente postado em 21/fev/2015.

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