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domingo, setembro 06, 2015

Sobre Preconceito





Em tempos de xenofobia em alta na Europa e guerra eminente entre indígenas e não indígenas no Brasil, pensar sobre preconceito é preciso.

Essa é uma questão complicada e muitas vezes delicada, mas precisa ser pensada. Como em tudo na vida, ela traz mais questões do que respostas, mas precisamos ter algumas certezas, ainda que transitórias.

Muitos sabem, outros não, que os preconceitos não são inatos, ou seja, não nascemos COM eles - assim como as imperfeições comportamentais da humanidade também não são. Por isso, podemos pensar que eles não sejam parte de um conceito dado a priori, mas de algo construído socialmente, ainda que se sobreponha a fácil generalização à compreensão da diferença

O que podemos pensar é que não partimos do nada, não pegamos a informação sem nenhum amparo em experiências sociais anteriores, estando ligados diretamente ao grupo (ou grupos) ao qual fazemos parte. Não olhamos para algo que nos é "estranho" e criamos uma definição pejorativa como quem tem uma epifania, por isso mesmo sendo um "pré-conceito", buscando nos "desenhos" já prontos elaborar nossa visão sobre o que nos é apresentado.

Em sentido contrário, mas complementar, isso vai ao encontro do que nos disse Rousseau há séculos: "O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe". Isso tem muito de verdade, embora a "bagunça" do Ser Humano seja tão grande atualmente que isso acabe sendo deixado de lado, nos perdendo em definições generalizantes, longe das especificidades de que são compostas as diversidades. 

Muita gente, como o relator da redução da maioridade penal aqui no Brasil, o deputado Laerte Bessa (PR-DF), prefere defender que crianças com tendências criminosas "não sejam autorizadas a nascer", o que, traduzindo, quer dizer que bandido nasce "bandido" e mocinho, nasce "mocinho" - pensamento que também não é nenhuma novidade. Nada mais falso, se levarmos em conta que o homem é um ser social e construído pelo e através do seu meio, não é um ser "natural", que já nasce "pronto".

Mas, ainda sobre isso, se pegarmos o caso da África do Sul e aplicarmos a fala do senhor Bessa, teríamos um preconceito às avessas, ou seja, os "brancos", ingleses sobretudo, seriam todos ruins (generalização), pois invadiram um espaço "negro" e aos negros impuseram uma realidade cruel e exploradora (essa parte é verdade), exemplo do Apartheid - o que poderia ser igualmente aplicado à Índia, aos países do Oriente Médio e lugares e momentos históricos ad infinitum. Mas em relação à África do Sul, vimos, ao contrário disso, Mandela a pedir que seus compatriotas negros esquecessem o que haviam passado - ele mesmo "esquecendo" seus 27 anos de injusta prisão - e buscasse construir um país habitável para negros e brancos.

O que isso nos mostra em relação ao preconceito, senão que quem usa a desculpa dos defeitos inatos ou condenação imutável (como os míticos filhos de Cã, que foram muito falados por esses tempos e que não convém detalharmos aqui), pega informações da sociedade em que está inserido. 

Além disso, penso que isso mostre que, quando se age com preconceito, em parte se age como a criança (ou outra faixa etária qualquer) que quer atenção e por isso age de acordo com o grupo social, mesmo que no fundo sinta que não pensa exatamente como ele, mas fica bloqueada, por vezes, pelo medo da rejeição, assim como rejeitam o que é diferente. Traduzindo, diríamos que Bessa é um "produto" do seu meio e dos anseios do mesmo. 


Mas, a outra parte da coisa nos leva a pensar na maneira como nos apropriamos disso e que, se admitimos algo parecido com "livre arbítrio", devemos imputar culpa aos que promovem práticas racistas - pautadas em preceitos religiosos ou não. Isso porque, muitos recriam os preconceitos recebidos e repassam em novas formas e com novos elementos, o que acaba perpetuando ideias herdadas de uma forma "inovadora". 


Foi assim quando fiz uma pesquisa com alguns adolescentes e muitos deles diziam que os índios do Brasil são todos "vagabundos", "bêbados" e "malandros", mesmo sem nunca terem visto algum índio ou mesmo, se os viram, sem fazerem uma avaliação das informações preconcebidas que herdaram, inclusive de seus professores, tendo uma atitude irrefletida que poderá virar algum tipo de militância "fascista". 

Em alguns casos ainda, ter preconceito acaba sendo uma resposta ao medo de ser visto como o diferente que lhe é apresentado e que rejeita (ex. lésbicas, gays, etc.), criando desculpas para manter distância ou mesmo perseguir o que lhe incomoda, como vemos ao longo dos últimos séculos em eventos e teorias, como: "dia da raça", "darwinismo social", "extermínio dos incapazes e desnecessários", luta contra os "invasores", etc etc etc..

Claro que, muitos terão seus pontos de vista e discordarão de pontos apontados nesse texto, mas isso faz parte quando se trata de refletir sobre si mesmo e sobre os outros.

E se, enfim, voltando a Rousseau, a parte das pessoas que ainda tem algo de bom e quer ver uma humanidade mais justa e compreensível, mais "igual", precisa pensar mais, ler mais, refletir mais, criticar mais, e viver de forma menos conservadora. E, claro, torcer para a parte que já tem o "mau" como constância resolva olhar para o mundo com olhos diferentes - o que acho bem difícil -, ou ao menos seguir o "contrato social" que tanto pedem como civilizados que são.

Dica de livro:

 livro O Espetaculo Das Raças

O Espetaculo Das Raças
Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil - 1870 - 1930
de Lilia Moritz Schwarcz
de R$ 46,00 por R$ 31,41!
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Sugestões de leitura:

- Jean-Jacques Rousseau - Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade Entre os Homens.

- Jean-Jacques Rousseau - Do Contrato Social.


- Áudio confirma que Bessa sugeriu mesmo que crianças criminosas não devem nascer - http://www.brasilpost.com.br/2015/07/22/bessa-crianca-criminosa_n_7851226.html

* Imagem do topo montada a partir de foto de um barco de pesca com 85 imigrantes que desembarcaram no porto de Los Cristianos, nas Ilha Canária de Tenerife, Espanha, em 2006. (Foto original de Arturo Rodriguez, AP).


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