Zé Butina e a pinga ~ Identidade 85 ::

domingo, fevereiro 14, 2016

Zé Butina e a pinga





Fui até o hospital após um telefonema de um parente do Zé. Do outro lado a pessoa dizia que ele estava internado e que estava mal de saúde...

No hospital, era hora de visita, procurei por seu quarto, até que o encontrei meio pálido, da forma que se espera ver alguém que se recupera de algum mal. O Zé estava triste, como não o tinha visto até ali. Logo que me viu me chamou para perto e nesse momento me senti próximo, quase da família.

Após alguns comprimentos e papos introdutórios, ele quis me contar de algumas aventuras que não foram boas na sua vida e passar alguma mensagem moral, do tipo paternal. Eram coisas de que se arrependia. Se arrependia não por se achar uma pessoa má, mas, segundo ele, por ter feito más escolhas em alguns momentos. Respeitosamente ouvi e registrei...

Nóis fazémo muita coisa na vida que nóis arrependi, né. Cof, cof, cof! Uma delas foi ter passado dus limite com a pinga rapáiz!

Eu sempre gostei de baile, como já falei pro cê. Sempre fui muierengo – hoje susseguei (nesse momento olha pra dona Maria, sua esposa, que lhe faz companhia). Mas, bebê sempre bebi. E num gostava de cerveja não, gostava era de pinga mémo. Cumecei novo, divia tê uns 14, 15. 
Trabaiva deisde antes do sol nascê; então acordava, tomava um cafezin, pitava um paiêro e ia trabaiá. Quando era umas cinco da tarde, já parava, porque daquele dia o trabaio já tinha acabado né. Ia então com a mula direto pro buteco do Chiquin. Lá já tava tudo os cumpanhero em roda do barcão ô tava sentado nos banco, que era feito de tronco de arve.

Nu cumeço até que eu ia bem, nóis ria bastante, falava um monte de bobera. Mas co tempo, não sintia mais a coisa e fui armentano as dose. Chegô a tanto, que tinha dia que tomava de dois litro sozin rapáiz! 

Cof, cof, cof! 

Descurpa as toce, é que tô fraquin ainda das enjerção.

Só sei que foi ansim por muitos tempo. Eu vortava pra casa muito mar. A mãe, quando ainda era viva falava “pára com isso Zé, ainda vai tá dá porbema fio!”, mas eu num orvia não. Continuei bebeno, acho que mais ainda despois que ela morreu.

Perdi argumas muié por causa disso, como a mãe do Zeca que ocê já cunversô. Elas recramava, eu prometia que ia pará, mas...

Só sei que isso começô a me causá muito mar de saúde também. Fui internado muitas veiz por esses ano, algumas achei que nem ia saí vivo. Mas saí. O Zeca vivia dizeno pra mim i pra igreja com ele e eu num ia. Sabia que ele que me procurô dispois que separei da mãe dele? Fiquemo 1 ano sem se vê. Ele era pequeno, ainda alembro dele apareceno na pensão da finada Cida Borges com o véio Mané baçorero, vô dele.

Bom, mas eu chamei ocê aqui porque é um rapaiz bão, que tem ouvido minhas história. Queria que registrasse essa que não é uma parte muito boa da minha vida. Ainda mais agora, que tô internado, que não tô bão. Mas o dotô disse que daqui uns tempo eu saio, só que não quero que as pessoa passe por isso e se pudé evitar os mar da bebida, evita.

Terminamos nossa conversa, saí do hospital meio triste por ele e depois disso fiquei um bom tempo sem receber notícias do Zé Butina...



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* Pedimos a gentileza, caso queiram usar o texto, que citem a fonte. Grato!

** Imagem do topo montada a partir de foto disponível em 
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