Democracia para Cuba? Qual? ~ Identidade 85 ::

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Democracia para Cuba? Qual?


Fidel Castro

Jean Menezes*

Nesta semana, pudemos observar o deleite dos veículos midiáticos acerca da “renuncia” de Fidel. No bojo de todo esse deleite o discurso da fase de transição para uma Cuba democrática foi inevitável. E sobre esta questão não faltaram analistas de plantão como Ana Hickmann e Britto Junior (apresentadores de TV), líderes políticos, jornalistas como fizeram o espetacular casal da rede globo, Fátima Bernardes; William Bonner, entre outros, nos mais variados botequins, incluindo, evidentemente, o açougue da Casa Branca.

Que democracia professam para Cuba? Seriam profetas da democracia grega, onde a maioria absoluta da população estava “legalmente”, proibida de apresentar-se como cidadã? Onde as mulheres eram tidas como uma espécie de escrava doméstica mais sofisticada do que o escravo comercializado na Ágora em Athenas? Onde a Aristocracia Eupátrida (detentores de terras e outros bens) governava a cidade em nome dos “deuses”?

Ou nossos profetas do pretérito se referem à democracia aos moldes romanos, onde a maioria esmagadora dos plebeus eram explorados em nome da res publica? Onde os patrícios fundiam o público com o privado, mantendo-se no pedestal da elite senatorial? Seria um referencial a “República Democrática” de Roma essa que hoje tentam ideologizar para Cuba “pós” Fidel?


Poderiam nossos profetas do pretérito argumentar que nenhuma das duas! Que a democracia que deseja Cuba (veja bem, a democracia que quer Cuba, não a Cuba que quer a democracia!) é a democracia iluminista do século XVIII. Um projeto de democracia levantado pela burguesia industrial e consolidada com uma série de avanços para as nações comprometidas com os direitos humanos de primeira à quinta geração. Ou seja, a democracia liberal, hoje, uma democracia neoliberal moderna e filha da justiça de Atena (um mito)!


Vejamos mais de perto esta democracia que nossos decadentes profetas do passado insistem em determinar que Cuba careça (...) um governo do cidadão que por assim dizer se contrapõe a ditadura de Havana (...).


Nossos “cientistas políticos” de botequim se regozijam com a renuncia de Fidel, tendo-a como o prelúdio de uma “nova era” para a ilha, e um novo tempo guiado pela democracia contemporânea, mas “esquecem-se” que esta tão badalada democracia é feita, historicamente de papel e que suas conquistas reformáticas superficiais, nada mais possui de concretude do que a cristalização das injustiças e do poder econômico e um grupo sob outro.


Apologizam de modo inconteste a democracia do “bom homem” cidadão, que não transforma a realidade ao seu redor, mas que se adapta ao meio em que está inserido, sendo apenas um cidadão de açúcar que teme a água. Defendem a democracia que, aos moldes de Nova Iorque da década de 30, levava a justiça às classes sociais como um verdadeiro açougueiro de faca e fuzil em punho. É a mesma democracia que apresenta números mirabolantes sobre desemprego, educação, habitação, ignorando a realidade bem diante de seu nariz! Bem diante de sua redação que se faz míope diante de tudo, inclusive diante da mortandade infantil que gera renda e boas manchetes aos capachos do capital. É também a mesma democracia que ignora a maioria dos homens e mulheres como sujeitos de sua história, concentrando-os em um piquete, onde possam engordar consumindo as idéias forjadas pelos intelectuais do capital e, como verdadeiros escravos aristotélicos, possam ser úteis ao bom desenvolvimento necessário da política!


Certamente, diante do processo histórico, essa democracia profetada do pretérito até o decadente presente da política ocidental é totalmente incapaz de promover, sequer, uma palha de liberdade humana diante do que fez Cuba durante estas últimas décadas. Longe de romantismos, Fidel representa uma sociedade onde a execução do poder não é uma exclusividade de um grupo social endinheirado, de uma classe burguesa preocupada em reproduzir o seu capital a todo custo e a todo vapor! Cuba nos apresenta um novo paradigma do ser... Um paradigma que as “democracias” ocidentais estão a anos-luz de distância e por isso mesmo há anos-luz de poderem entender o que se propõe o projeto socialista implementado em Cuba.


Evidentemente, um projeto distante da realidade idealizada por Marx, mas um projeto singular e muito mais eficiente para a formação de homens emancipados e não cidadão de papéis preenchidos pelas canetas de ideólogos burgueses, letrados no adestramento de seres dóceis e obedientes!


Cuba, não é apenas Fidel, é a sua sociedade como um todo, com criticas e sucessos. Não é um nome, bem aos moldes aristocráticos (Grécia, Roma, e hoje), é uma sociedade em busca da emancipação, que não é conduzida, absolutamente pelo fetiche idiotizante da primeira pessoa do singular!

*Jean Menezes é professor de história, mestrando pela Universidade Federal da Grande Dourados e membro do Jornal Brado Informativo de Rio Preto.

Contato: fafica_95@yahoo.com.br

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