Urbano Braulino: o "colono ervateiro" ~ Identidade 85 ::

segunda-feira, novembro 14, 2016

Urbano Braulino: o "colono ervateiro"


Dias atrás conhecemos um pouco a colona Joaquina, agora gostaria de apresentar para você o colono Urbano Braulino da Silva. A dificuldade para conseguir entrevistá-lo foi grande, o que acabou por deixar a coisa ainda mais interessante. 

Em conversas com meu orientador, Paulo Cimó, desde 2007, quando ainda fazia Iniciação Científica na Graduação, já programava uma conversa com o velho colono de origem nordestina que havia trabalhado com erva-mate, o que não é tão fácil de encontrar, tendo em vista que a maioria dos trabalhadores diretos da erva-mate no sul do antigo Mato Grosso era de paraguaios e indígenas, ficando aos colonos da CAND (Colônia Agrícola Nacional de Dourados), por vezes, o papel de donos dos lotes que “vendem para outros tirarem” ou mesmo, em casos ainda mais raros, pequenos empreiteiros do mate. O fato é que por um motivo ou outro, apenas em 2011, quando já escrevia minha dissertação, consegui entrevistá-lo.

Pois bem, o Seu Urbano é um desses poucos que eu encaixo na lista de colonos que produziram diretamente erva-mate, a quem chamo de “colonos ervateiros”. Hoje residente em Nova Esperança, distrito de Jateí, Mato Grosso do Sul, onde foi entrevistado em dezembro de 2011, ele nasceu em 1930, no estado da Bahia, e como a maioria dos colonos migrou para o Oeste brasileiro “com a notícia de que aqui tava dano terra po povo... aqui no município de Dourados”. Utilizando os serviços de trem da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), fez o trecho de Guararapes, perto de Andradina, no interior de São Paulo, até Itaum, já em Mato Grosso, seguindo de ônibus para Dourados, vindo depois “a pé” para a nascente Vila Brasil, atual Fátima do Sul.

Algum tempo depois abriu lotes no Caraguatá, na chamada Segunda Zona da Colônia, com o sogro e um cunhado, para onde se mudou em 1956. Nesses lotes havia erva-mate, mas não conhecia, aprendendo já no interior da CAND, após ter contato com Epitácio[1], para quem começou a produzir e vender, entre 1957 ou 1958, depois de uma pequena incursão frustrada pela produção de arroz.

Aí depois que começou o serviço da erva. O caboclo, um caboclo chegô lá... lá o Epitácio, chegô ali, começô tirano erva, como já tinha muita erva... tinha... ensinei pra ele onde é que tinha erva aí. Tirô dos lote tudo, tudo. Só... num tinha ninguém mémo aí. Só tava eu, meu sogro e a famía aí. O resto que tava tudo em volta... tudo era mato... Comecei tirá erva. O negócio melhorô pra mim viu!? Aí comecei a tirá... ganhá dinhero com ele... e vai, vai... Quando ele foi embora, eu comecei to... Eu toquei uma roça, eu comecei tirá erva... Foi meus pão! Eu apanhava erva.

Urbano parece ter sido um dos colonos que conseguiram algum retorno com erva-mate – mesmo somando-a a outros tipos de cultura agrícola. Ele, como alguns outros colonos, também construiu um barbacuá com a ajuda de um amigo. “Eu roçava o mato pa podê prantá lavora, mas a erva eu aproveitava. Eu cortava e... pra podê vendê né? E ali foi o... o que foi meu pão foi aquilo ali rapaiz! Eu num tinha algum dinhero... eu num tinha... Eu fazia, ia lá, fazia a ferinha... Vendia a erva, fazia a fera e trazia. Pra podê trabaiá, passá a semana. Eu fiz isso muitas veiz”. 

A erva-mate que cortava nos fins de semana, apesar das demais plantações que tinha, teria lhe ajudado no sustento por um bom tempo, “acho que uns... três anos nessa vida tirano erva viu?!”, dando “pra fazê a fera pra passá a semana”. E se o preço recebido pela erva-mate não fosse tão alto, “você vendia as coisas barata, mas também comprava barata”.

Trabaiava de segunda, terça, quarta, quinta, sexta... na, na roça. Quando era no sábado eu ia cortá erva. Sapecá, põe no barbacuá e quando, só... tocá fogo, né? E levá... levá de [...] aí. Levava quarenta quilos... Até cinquenta quilo já levei, nas costas, daqui no Jateí! Dentro da picada. E aí foi minha vida rapaiz! Desse jeito. A erva me valeu muito!

Além dele, o sogro, Antonio Fileu, e o cunhado, somados a outros nomes citados por ele, como Zé Baiano, Mané Mineiro, Zé Xavier, Mané Xavier, Avelino Braúna e Nerinho, também trabalharam com erva-mate, extraindo e vendendo – “eu sei que tinha uns oito aqui que mexia com erva né?”. “Era assim. Que essa erva aturô muito tempo aqui rapaiz. A turma se virô muito com erva”.

Como visto ainda com outros colonos, com Urbano não foi diferente, quando os lotes começaram a ser desmatados começou a ser abandonada a produção de erva-mate, o que parece ter sido um desalento para ele: “A... depois... foi aquela situação, depois que... que começô a abri todos os terrenos aqui, e eu... falei ‘meu pai do céu, como que eu vô fazê?’ E agora o andar...?”. Em sentido mais amplo, era o que temia também o Instituto Nacional do Mate (INM), principal órgão de controle da economia ervateira brasileira entre 1938-1967, “depois acabô a tiração de erva. A erva começô queimá com a roça... cabô todinha. O pessoal começô roçá e ponhá fogo...”. Isso parece ter ocorrido entre o final dos anos 1950 e inícios dos anos 1960, sendo possível que os lotes já estivessem demarcados há mais tempo, mas ainda não estivessem “abertos”, isto é, ainda não era interessante dedicar-se apenas à agricultura, ainda mais tendo a erva-mate como fonte de renda.

A trajetória de vida do Seu Urbano de maneira mais ampla não é muito conhecida por mim, tendo apenas o que me contou, em especial sobre suas incursões pela produção de erva-mate e agricultura, isso porque já foi difícil conseguir uma conversa com o “colono ervateiro”. Quando cheguei à Jateí, em dezembro de 2011, tinha em mente apenas dois nomes, o do próprio Urbano e de um seu amigo por nome Manuel Valêncio Gomes Filho, vulgo Seu Sué. Aconteceu que eu já havia tentado contato por telefone com o Seu Urbano, mas, na única vez que encontrei o ativo senhor de 82 anos em casa, ele se mostrou desconfiado, negando que tivesse trabalhado com erva-mate ou qualquer coisa parecida, afirmando após insistência minha que havia trabalhado com erva-mate, “mas faiz muito tempo, nem lembro mais rapaiz”. Isso me deixou em desalento, era meu principal alvo de entrevista. 

Mas, após muitos “ensaios” decidi arriscar, indo Eudes Fernando, Alan Jara e eu, rumo à pacata Jateí (em outra postagem contarei um pouco mais sobre a minha visita à pequena cidade). Em resumo, após falar com algumas pessoas, especialmente o pastor Adauto, um colega nosso de profissão e seu amigo, consegui um aval do desconfiado Urbano

Quando chegamos em sua chácara, localizada no distrito de Nova Esperança, a poucos quilômetros de Jateí, mal sabia eu o que esperar, por esse motivo nem fotos ou vídeos da entrevista fizemos. Mas, como as coisas nem sempre são como parecem nos primeiros “choques de contato”, ele acabou por se abrir e me dar uma das entrevistas mais produtivas e interessantes que já fiz. Com ele, em poucas horas, aprendi muita coisa que precisava aprender e descobri muitas das experiências de velhos “colonos ervateiros”, pessoas que adotaram a erva-mate como fonte de renda, mesmo juntando-a a outras atividades. 

Saí de sua casa contente, aliás, muito contente, com a sensação de que havia conseguido atingir meu grande objetivo. Mal sabia eu que muitas entrevistas ainda faríamos naquele 16 de dezembro de 2011, como a do primeiro prefeito de Jateí, Moacir Fagundes, o filho de Antonio Fagundes (mas isso é assunto para outra postagem).


Povoado de Vila Brasil, hoje Fátima do Sul, MS,
um dos primeiros lugares onde morou o Seu Urbano. 
Foto da Coleção "CAND" do CDR/UFGD.


Dica de Livro:

livro nordestinos histórias de vida migração

Alexandre Lino
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[1] Morador de Caarapó que andava pela região com seus trabalhadores extraindo o produto, que, segundo o senhor Urbano teria sido anos depois prefeito dessa cidade. Essa informação parece se confirmar através de um artigo recentemente publicado na internet por André Nezzi, que tratando de outro ex-prefeito de Caarapó, Artur Prado Marques, cita que “no ano de 1966, com a renúncia do então prefeito Epitácio Lemes dos Santos, Artur foi nomeado prefeito de Caarapó, ficando um ano à frente do Executivo, encerrando o seu mandato no final do ano de 1967” (NEZZI, 2010 – disponível em < http://www.caaraponews.com.br/noticia/caarapo/6,13864,ex-prefeito-de-caarapo-e-hoje-autoridade-esquecida >, visitado em 13/maio/2012).

* Foto do topo: Monumento de Jateí. Foto de Eudes Fernando Leite.

** Originalmente postado em 14/nov/2012.

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