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sexta-feira, julho 24, 2015

Os escritores sem valor


Andando por Montevidéu, Uruguai, no começo de 2014, notei que por lá existe uma infinidade de livrarias, nas principais ruas da cidade, especialmente na 18 de Julio, onde se vê uma (ou mais) em cada esquina. Daí me peguei perguntando: que valor se dá aos escritores, quando muitas pessoas ainda não entendem o quão trabalhoso é produzir um texto? 

Aliás, me revolta ver que muita gente ainda pensa que escritor não trabalha. Ou ainda que livros que resultaram de pesquisas sérias ficam mofando em estantes de bibliotecas públicas porque não tem capas bonitas e o tema "certo"...

Claro que alguns livros, em minha opinião, gastam indevidamente neurônios de leitores, que poderiam pensar em coisas mais úteis. Livros de autoajuda, ou "ajuda alheia", que vendem milhões, que não ajudam em muita coisa quando o assunto é construir um mundo realmente melhor. Claro também que os leitores desses livros tem sua culpa.

Não penso no valor propriamente econômico dos livros e sim o valor enquanto objeto de conhecimento e construção social. 

Mas, o que quero dizer, sobretudo, é que tem uma parcela considerável de pessoas que vêem livros como coisas descartáveis. Basta uma dar vista por alguns lugares dos Estados Unidos, como Nova York, por exemplo, onde se pode achar livros em grande quantidade nas caçambas de lixo. Não é difícil associar isso ao caráter descartável que as coisas assumem num mundo cada vez mais consumista.

Mas e os autores? Como eles ficam? Se seus livros se descartam com facilidade, como então podemos valorizar seus autores?

Não damos conta, pelo menos uma parte considerável de nós não dá, que para se produzir um livro de qualidade é preciso um trabalho realmente árduo, resultado de muita pesquisa. Muito do que dizemos nos livros não é pura criação, isso deve ser dito, mas também não poderíamos chamar de "cópia" (o que incorreria em plágio), talvez eu diria que o que fazemos, aqueles que trabalham com textos, seja algo como "elaboração processual", que envolve análise, senso crítico e, o que em História é fundamental, referência.

E olha que nem preciso entrar nos tipos digitais de texto, coisa que vem se juntando ao caráter impresso e seria assunto para outra postagem. Penso aqui apenas nos resultados de trabalhos que ainda são apresentados em formato impresso e creio que ainda temos e teremos espaço por muito tempo para eles - muita gente ainda prefere ler livros impressos, ao invés de gastar suas vistas em e-books e afins.

Portanto, ao passarem, ainda que não entrem, mas se postando diante de vitrines de alguma livraria física (ou mesmo quando forem comprar pela internet), não vejam apenas mais algumas pilhas de livros em meio a tantas outras, algo como uma pilha de gente "desocupada" materializada em livros escritos por hobbie. Mas procurem, sim, ver um conjunto de prateleiras que, limpando-se os joios, armazena belos e saborosos trigos.

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* Imagem do topo: livraria outlet de Montevidéu retirada do blog vivereetecetera.blogspot.com.br/
** Originalmente postado em 26/jan/2014.

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2 comentários:

  1. É isso mesmo, José Antonio. Sua constatação não é errônea. Nós, escritores, temos que lutar muito para não cair em desgraça (baixa autoestima), visto que os livros podem ser tão descartáveis quanto papel de bala. Mas, ainda assim, há aqueles que escrevem porque são possuídos de valores vocacionais superlativos, como é o ofício de escrever. Nossa luta é por formar leitores; é luta para toda a vida.
    Parabéns pelo texto!

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    Respostas
    1. Obrigado pelo comentário Felipe! Salvei seu blog nos favoritos, vou ver com calma depois... abração

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