"O senhor dos Anéis" e a Primeira Guerra Mundial ~ Identidade 85 ::

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

"O senhor dos Anéis" e a Primeira Guerra Mundial





O que há em comum entre a saga O senhor dos anéis, de JRR Tolkien e a Primeira Guerra Mundial? Veja nessa postagem.

A relação entre a história original de JRR Tolkien, que deu origem a sequência de filmes de Peter Jackson, e a Primeira Guerra não são resultado meras coincidências. Tolkien esteve no front, sendo um dos que escaparam com vida, fazendo parte da chamada Geração Perdida, aquela dos milhares de artistas, escritores e músicos que marcaram presença na Grande Guerra.

Tempos atrás John Rhys-Davies, que estrelou Gimli na adaptação para o cinema feita por Peter Jackson de O senhor dos anéis, fala sobre a experiência de JRR Tolkien na Primeira Guerra Mundial. Mostra a sorte tida pelo autor, no auge dos seus vinte poucos anos, ao contrair a "febre das trincheiras" que o livrou dos combates no Somme

O livro seria lançado em 1954, construindo uma história imaginária da Terra Média, habitada por orcs, alfos, hobbits, bruxos, anões e outras criaturas fantásticas. 

Sua relação com a realidade, suas comparações, podem ser vistas em diversas passagens e aspectos do livro de Tolkien, como alguns que seguem.

Máquinas e monstros

Em O senhor dos anéis, o gigante, elefante como Mûmakil, ou Olifantes, são descritos como "cinzas vestidos movendo morros", pondo abaixo tudo em seu caminho como tanques, com os cavalos de Rohirrim assustados a correr para qualquer lugar. Um exemplo mais evidente do "raiar das metralhadoras" pode ser visto na primeira história da Terra Média, The fall of Gondolim, escrito quando Tolkien estava no hospital se recuperando da "febre". Na trama, o Senhor das Trevas Morgoth sitia a cidade élfica de Gondolin com máquinas de destruição extremamente poderosas na forma de serpentes e dragões comparáveis aos monstruosos tanques do Front Ocidental.

Os gritos de Nazgûl

Nas nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial névoa e fumaça podem obscurecer cavaleiros mas não seus cavalos, e máscaras de gás podem distorcer suas falas para sibilações e fungados. Os Nazgûl de Tolkien, ou Ringwraiths, em comparação, estão cobertos por pesadas capas pretas para disfarçar sua verdadeira (senão invisível) forma, sibilam nas pessoas e farejam enquanto procuram pelo Anel.

Os sons que produzem são algo semelhante ao som das bombas voando pelo ar antes de explodir. O efeito psicológico que o som da artilharia provoca nos soldados (impacto de bomba) é comparado ao efeito dos gritos de Nazgûl. Tolkien falou a respeito dos gritos de Ringwraiths: "mesmo o corajoso pode lançar-se ao chão quando a ameaça paira sobre ele, ou ele pode ficar, deixar suas armas caírem das mãos confiantes enquanto em sua mente vem uma negritude, e eles não pensam mais em guerra, mas apenas em se esconder e rastejar, e morrer".


Ringwraiths de O senhor dos anéis (topo) e
 soldado de cavalaria alemão na Primeira Guerra

Sam Gamgee e o Tommy

A experiência de guerra de Tolkien deixou-o com "uma "profunda simpatia e sentimentos pelo 'tommy', especialmene o soldado raso das regiões agrícolas". Ele baseou o personagem Samwise Gamgee nos soldados comuns que ele conheceu durante a guerra, homens que mantiveram sua coragem e permaneceram animados quando não havia muitas razões para esperança. 

Oficiais como Tolkien foram geralmente homens de alta classe social, sendo indiferentes ao fato de ter alguma experiência militar. Eles frequentemente designavam um soldado de uma patente inferior para cozinhar, limpar e lavar seus uniformes. Os oficiais e seus homens, conhecidos como "batmen", frequentemente criavam fortes laços. Não era incomum, se o oficial tivesse morrido no front de batalha, encontrar seu "batman" morto ao lado dele.

Tolkien foi muito afetado pelos seus relacionamentos e usou-os para moldar o vínculo entre Frodo e Sam. Os bolseiros tem um vínculo social constante no Condado de Gamgees e durante todos os livros Sam se refere a Frodo como "Mestre" ou "Sr. Frodo". 

"Meu Sam Gamgees é deveras um reflexo do soldado inglês, dos soldados rasos e dos 'batmen' que eu conheci na guerra de 1914, reconhecidamente tanto mais superiores que eu mesmo", disse Tolkien. Sam carrega tanto as suas como as mochilas de Frodo em sua jornada; ele cozinha e limpa para ambos e protege Frodo ferozmente. No final da narrativa há do afeto existente entre Frodo e Sam para ajudar um ao outro a sobreviver aos horrores do Anel.


Frodo e Sam

Alegoria da guerra?

O mesmo John Rhys-Davies conversa a respeito da alegoria da Primeira Grande Guerra com a Dra. Dimitra Fimi (veja o vídeo abaixo), estudiosa de Tolkien e professora de inglês na Cardiff Metropolitan University. Para ela, Tolkien se recusava a ligar sua história à Segunda Guerra Mundial e a figura de Hitler especialmente, procurando se ater ao que já era bastante marcante para ele, aquela guerra que ele e tantos outros acreditavam ser a guerra que ensinaria algo a humanidade e portanto que não haveria outra igual. Havia até um comentário de que o Anel seria uma alegoria da bomba atômica, mas isso também foi negado, segundo ela. 




O trauma hobbit


Traumas foram correntes sobre os homens de ambos os lados da Terra de Ninguém,  e no fim do conflito em torno de 80.000 soldados britânicos foram tratados dessa doença. Os sintomas incluiam alucinações vívidas e pesadelos onde se revivia eventos traumáticos, ansiedade e depressão, entorpecimento emocional e mudanças de personalidade. Tolkien teria estado ciente dos efeitos do tempo no hospital e na linha de frente. Ele apresenta uma visão compassiva n'O senhor dos anéis da aflição de Frodo com a condição de carregar e depois ter que destruir o Anel. 

Mesmo antes de chegar a Mordor, Frodo experimentou cegueiras repentinas temporárias em algumas ocasiões, um sintoma comum do trauma, e quando ele chegou próximo ao Monte Doom experimentou a perda do paladar e do olfato, tremedeiras incontroláveis, exaustão e ataques de ansiedade. 


Homem desconhecido sendo tratado 
por causa de trauma de guerra

Pacifismo e abstinência


Tendo retornado ao Condado, uma mudança na personalidade de Frodo se tornou evidente. O condado está cheio de criminosos e baderneiros. E quando Merry e Pippin conclamam os hobbits às armas, Frodo recusa-se a tomar parte e insiste que nenhum seja machucado ou morto.

Soldados traumatizados, como por exemplo o poeta Siegfried Sassoon, tornaram-se pacifistas depois da guerra. Muitos também perderam o interesse em coisas que alguma vez gostaram, e se isolaram da sociedade como uma forma de auto-proteção das reminiscencias de suas experiências traumáticas. Enquanto Merry, Pippin e Sam se reintegram à vida no Condado, Frodo silenciosamente se retira e é atormentado por reminiscencias terríveis e pesadelos.


Frodo e o poder do anel

Fact or falsehood?


No site consta ainda uma espécie de tirateima intitulada Verdade ou mentira (Fact or falsehood?com perguntas sobre a relação da ficção de J.R.R. Tolkien com a realidade das guerras que viveu.

Por fim, os vídeos a que me referi podem ser assistido logo abaixo. O único inconveniente é que o conteúdo está em inglês e sem legenda.


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Vídeo 1
(caso não abra, clique em "View this content on the BBC site")



Vídeo 2
(caso não abra, clique em "View this content on the BBC site")




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* Originalmente postado em 23/ago/2014.

** O conteúdo desse texto é uma tradução feita por nós do conteúdo disponível no site da BBC, que pode ser consultado no link: http://www.bbc.co.uk/guides/zgr9kqt

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